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E tudo muda

por parasergrandeseinteiro, em 11.02.14
Fiz uma mala com dois pijamas, um par de chinelos e um casaco de lã amoroso escolhidos ao meu gosto e oferecidos pelos pais. Pouco mais foi necessário levar. Não eram umas férias, mas o quarto era confortável e apenas para mim.
Estava esclarecida e bem elucidada do que que me esperava. Ou então não estava. Mas também não era preciso.
Entrei na véspera. Aproveitei o serão para terminar um projecto proposto numa ultima fase de entrevistas da minha futura (actual ex) empresa em Hong Kong. Era importante para mim, não tanto como o que iria acontecer no dia a seguir, mas queria fazê-lo e entregar.
Como estaria eu nas próximas semanas? Dificilmente capaz de fazer o que quer que fosse.
O Prof. JF entrou no meu quarto e admirou-se, repreendendo-me de imediato: T, quero-a a dormir quanto antes para amanhã estar fisiologicamente apta para a cirurgia.

Tomei um banho com um líquido, para mim lixívia, embora me garantissem que não, e vesti uma bata que me deixou o rabo de fora. A toca deu o charme final.
Subi para a maca. E ouço a Sra. Enfermeira dizer sobriamente: despeça-se dos pais.
Despeça-se? Oh diabo! Então? Senti a situação como um soco!
Ali caí em mim. Os 7% de taxa insucesso associados à intervenção que me esperava, pareciam-me agora significativos, e nunca me tinham sequer incomodado até data.
Sou muito pragmática e prática nestas situações. A solução para o problema era aquela. Escolhi o melhor cirurgião, tinha confiança nele e queria resolver a situação da forma mais célere. Estava muito positiva.

Lembro-me dos olhos azuis aguados do meu pai, da expressão de ternura da minha mãe que me disse inquieta: até já meu amor, vai correr tudo bem. Estamos aqui à tua espera.

Há pois vai, só pode!
Enquanto me pincelavam para entrar na sala de anestesia, tive uma conversa seria com o meu corpo:
"Nem sempre te tratei da melhor forma, sou gulosa para caramba, fui uma adolescente rebelde e bebi algum álcool e essas cenas que parecem ser "saudáveis" (irónico) para ser um adulto equilibrado e resolvido. Mas agora cresci, como sempre sopa e fruta, bebo muita agua, faço desporto, e sou consciente com a minha saúde... E não é por mim! Até porque não estarei cá para lamentar. Mas as pessoas que estão lá fora não merecem sofrer. Por isso dá o teu melhor!"
E pronto, entrei na sala de Cirurgia e fui super bem tratada. Os minutos que estive consciente negociei uma cicatriz horizontal. Já apalavrada, mas teimosa como sou queria reforçar a ideia. Ficou combinado que não havendo questões de maior assim seria feito. Se complicasse, para além da horizontal teria uma vertical... Justo!

Foi assim que há uma ano atrás fiz uma cirurgia de peito aberto ao coração, para emendar um defeito genético com 30 anos (incrível) chamado "ostium primum", que me traria a muito curto prazo problemas e dissabores na minha vida: hipertensão pulmonar crônica e impossibilidade de terminar uma gravidez... Entre outros.

A cirurgia foi um marco importante na minha vida obviamente, mas esse foi o começo de uma viragem abrupta.
No espaço de um ano tudo mudou. Não tudo, mas muito.
Percebi e aprendi algumas coisas. E descobri uma garra interior que não conhecia.

Primeiro não há amor nem dedicação como o de mãe e pai.
Não ter autonomia, nem capacidades de ter a minha intimidade e higiene. Sentir-me incapaz de me levantar ou subir uma escada. E te-los ali prontos, a postos!, e disponíveis 24h por dia, capazes do inimaginável só para diminuir um milímetro que fosse o meu desconforto ou dores.
Aprendi depois de algumas lágrimas e surpresas que é assim, um amor incondicional sente-se por pais e filhos. Há muitos tipos de amor paralelamente, mas vamos lá crescer e gerir expetativas... Não estão lá sempre. Muito menos quando "é preciso".

Lamentar situações, acontece, mas o mundo não nos deve nada, devemos nós ao mundo. Falo por mim.

Esta coisa de andar para aqui não é fácil, nem sempre percebo o objectivo, mas felizmente vou tendo a maioria das vezes energia positiva e motivação para viver feliz no meu presente e sonhar com o futuro. E a coisa anda maioritariamente de sorriso aberto.

Aprendi que prefiro pedir disposição, motivação e boa energia, se é que isso se pede, ao invés da sorte, do sucesso e derivados. Tenha eu vontade, motivação e um sorriso e meu deus, do que sou capaz! Não é preciso ter muito, mas a proeza de viver com pouco. Essa quero-a!

Aprendi a não ter medo da solidão. Para que? Já estive tão só, achando-me acompanhada. Autocomiseração também já não dá com nada!

Senti que não é tão difícil começar de novo. Pelo contrário, é altamente recompensador. Ainda mais quando se tem uma oportunidade para viver outra vez.
Conquistar espaço e confortos torna-se um estilo de vida saudável!

Despedi-me da minha casa, do meu trabalho, mudei de país, terminei uma relação, comecei um novo projecto profissional, apaixonei-me de novo, senti-me feliz muitas vezes, terminei uma pós-graduação, terminei um contrato, despedi-me de HK, viajei, propus-me a outro projecto... E cá estou, com uma mão cheia de nada e um coração cheio tudo!

Um ano depois, guardo este percurso como a maior das oportunidades que tive na vida.
Desde não conseguir subir um único degrau, até estar do outro lado do mundo cheia de projectos.
Tudo muda!

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publicado às 01:26


1 comentário

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De xana a 11.02.2014 às 10:52

É essa a beleza da vida! Podemos sempre reinventar-nos! Beijinhos grandes de quem te adora!!

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